Na concepção de mundo dos povos Bantu, a noção de FORÇA assume o lugar da noção de SER. Este pensamento funciona como uma determinante, fazendo com que toda a cultura banta seje orientada no sentido do aumento dessa força e da luta contra a sua perda ou diminuição.
Exemplificando a prática dessa filosofia, Jacques Maquet in Les civilisations noires, 1966, 153-155, resumidamente, assim descreve o universo filosófico da etnia baluda:
“Para os Lubas a realidade última das coisas, representando também o seu valor supremo, é a vida, a força vital.”
“O princípio fundamental segundo qual TODO SER É FORÇA é a chave que dá acesso à representação do mundo dos Lubas. Todos os seres (espíritos dos ancestrais, pessoas vidas, animais e plantas) são sempre entendidos como força e não como entidades estáticas.”
“Esta concepção da existência rege todo o domínio da ação humana. Em qualquer circunstância devemos procurar ACRESCENTAR, evitando o único mal que existe: DIMINUIR. Assim as invocações dos grandes ancestrais têm por objetivo aumentar a energia vital, já que entrando em comunhão com eles, cuja vitalidade será maior quanto maior for a descendência, a pessoa fica mais forte.”
“Busca-se a intervenção dos adivinhos e dos sacerdotes (que têm o poder de captar e dirigir as forças que escapam às pessoas comuns) porque eles conhecem as palavras que reforçam a vida.”
Por enquanto, ficarei por aqui. Mas, pretendo postar um pouquinho mais sobre a existência da filosofia fundamentada na metafísica dinâmica e no vitalismo que concebe a idéia do Mundo para os povos Bantu. O que é referendado por Balandier in Dictionnaire des civilisations africaines, 1968:64.
Concepção de Mundo para os Bantu. ( Seqüência I )
“Quando a pessoa está doente, ela espera dos remédios não um efeito terapêutico localizado mas o reforço mesmo do ser. Por isto é que, entre os Lubas e outros povos africanos se dá muito valor ao vigor sexual do homem e à fecundidade da mulher, como testemunham os rituais e a estatuária. E isto porque a procriação é evidentemente a manifestação palpável do desenvolvimento da vida.”
“A MORTE É UM ESTADO DE DIMINUIÇÃO DO SER. Mas os descendentes vivos de um morto podem, através de oferendas, repassar a ele um pouco de vida. Quando os vivos são negligentes, os mortos chamam a atenção deles, mandando doenças ou provocando outros aborrecimentos. O morto que não deixa descendente está condenado à degradação final, espécie de segunda morte, desta vez definitiva.”
“UM INDIVÍDUO SE DEFINE POR SEU NOME: ele é seu nome. E este nome é algo interior que não se perde nunca e que é diferente do segundo nome dado por ocasião de um acréscimo de força como por exemplo o nome da circuncisão, o nome de chefe recebido quando da investidura ou o nome sacerdotal recebido quando da possessão por um espírito. O nome interior é indicativo da individualidade dentro da linhagem. Porque ninguém é um ser isolado. TODA PESSOA CONSTITUI UM ELO NA CADEIA DAS FORÇAS VITAIS, UM ELO VIVO, ATIVO E PASSIVO, LIGADO EM CIMA AOS ELOS DE SUA LINHAGEM ASCENDENTE E SUSTENTANDO ABAIXO DE SI, A LINHAGEM DE SUA DESCENDÊNCIA.”
No que tange a religião, diz Theuws, in Croyance et Culte chez les Baluba, 1958:25, os Balubas estão permanentemente se defendendo contra as forças destrutivas, colocando a seu serviço a energia dos objetos, dos animais, dos vivos e dos mortos, a fim de se preservarem e crescerem como pessoas.
Theuws considera que, para os Balubas, a fonte de toda força e de toda a vida é Deus, ou seja, SYAKAPANGA, o Pai-Criador ou ainda MWINE BUMI BWANDI, aquele que detém a vida em si mesma, pois não a recebeu de ninguém; aquele que “forjou as coisas com a palavra saída de sua boca; aquele que não é parte das forças da natureza e sim o Criador que as domina” já que os Baludas não são panteístas.
Assim, na concepção dos Baludas, Deus é SYAYUKA – o detentor de todo o saber; é MWINW MATAMBA, o senhor de todas as terras; é SYANDYA MANWA, o pai de toda a destreza, de toda a habilidade artesanal; é MWALA, o destruidor dos dons; e é MWINYA O TATA, o Sol que reanima (1958:28 – obra retrocitada).
O Mundo para os Bantu ( Seqüência II)
Ontologia Negra
O escritor colonialista português Silva Cunha in Aspectos dos movimentos associativos na África Negra, 1958:83-84, citado por Nei Lopes, assim escreve:
“Na ontologia negra (…) o SER é a FORÇA, e, como há seres divinos e terrestres, humanos, animais, vegetais e minerais, distinguem-se várias categorias de forçaS, todas diferentes. Entre estas estão as FORÇAS DOS ESPÍRITOS DOS MORTOS.
Todos os seres, segundo a sua potência vital própria, se integram numa hierarquia.
Acima de toda a força está Deus, que tem a força por si mesmo e que está na origem de toda a energia vital. Depois vêm os primeiros pais dos homens, os fundadores dos diferentes clãs. São eles os mais próximos intermediários entre os HOMENS e DEUS.
Depois vêm os mortos da tribo, por ordem de primogenitura. São eles oselos da cadeia que transmite o ÉLAN vital dos primeiros ANTEPASSADOS para os vivos. Estes, por sua vez hierarquizados, consoante a sua maior ou menor proximidade em parentesco dos antepassados e, conseqüentemente, segundo a sua potência vital.
A seguir às forças humanas vêm então as outras forças, animais, vegetais e minerais, hierarquizadas conforme a sua energia.
Todas as forças estão relacionadas, exercendo interações que obedecem a leis determinadas. Assim:
1 – O homem (vivo ou morto) pode diretamente reforçar ou diminuir um outro homem no seu ser. A resistência contra esta ação só pode conseguir-se por meio do reforço da força própria, recorrendo a uma outra influência vital.
2 – A força vital humana pode influenciar diretamente seres-força inferiores (animais, vegetais ou minerais).
3 – Um ser racional (espírito ou ente vivo) pode influenciar um outro ser racional atuando sobre uma força inferior (animal, vegetal ou mineral). A resistência a esta ação também só se conseguirá pelo reforço da energia vital, recorrendo a outras forças.
Para se proteger contra perda ou diminuição de energia vital por ação direta ou indireta de outros seres, o Preto tem que recorrer, portanto, às FORÇAS que possam reforçar a sua própria força – ou às DIVINDADES, ou aos ESPÍRITOS DOS ANTEPASSADOS – fá-lo por intermédio do culto ou ritual destinado a propiciar DEUS ou DEUSES e os ESPÍRITOS, ou por intermédio da magia, que Tempels diz ‘dever ser considerada como o conhecimento da interação das forças naturais, tais como foram criadas por Deus e, por ele postas à disposição dos homens”.
Fonte:Lopes Neu. Bantu, Malês e Identidade Negra.
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
