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Artigos: Trocas e Reinterpretações: O Catolicismo Africano

Nibojí, 28 de junho de 200815 de agosto de 2012

Sob o título acima referido, este artigo reproduz fielmente trechos do Capítulo II, “Catolicismo e Poder – O Caso Congolês”, da obra “Reis Negros no Brasil Escravista – História da Festa de Coroação de Rei Congo”, de Marina de Mello e Souza, Editora UFMG, 2002

Makota Iamin(*)

As relações entre Portugal e o Congo foram bastante documentadas por diários, cartas, documentos administrativos, relatos de enviados do rei português, de clérigos que difundiam a fé cristã e aconselhavam os negócios e a diplomacia tanto de Portugal quanto do Congo, de comerciantes que deitavam sólidas e lucrativas raízes, e mesmo de reis congoleses, que convertidos e alfabetizados mantinham correspondência com a corte portuguesa. As fontes que registraram os primeiros encontros concordam em certos aspectos, como a grande excitação, ajuntamento de pessoas, convocação ampla, que fez muita gente participar diretamente dessas cerimônias de batismo, festejando conforme suas tradições, alguns vendo e outros ouvindo sobre as maravilhas trazidas pelos portugueses em seus navios que vinham de longe pelo oceano.

É evidente que não havia outra maneira de o povo congolês do século XV compreender o que acontecia a não ser a permitida pelo seu universo cognitivo. (…)

Wyatt MacGaffey e John Thornton, o primeiro, antropólogo, dedicado ao conhecimento da cultura bacongo; o segundo, historiador, especialista no reino do Congo dos séculos XVI ao XVII, defendem que durante os primeiros 200 anos de contato entre congoleses e europeus houve o desenvolvimento de um catolicismo africano, no qual os missionários cristãos viam sua religião, e as populações congolesas a sua forma tradicional de reverenciar os deuses e relacionar-se com o além. Diálogo de surdos ou reinterpretação de mitologias e símbolos a partir dos códigos culturais próprios, a conversão ao cristianismo foi dada como fato pelos missionários e pela Santa Sé, assim como a população e os líderes religiosos locais aceitaram as designações e ritos cristãos como novas maneiras de lidar com velhos conceitos.

No entender de MacGaffey, o acontecimento definidor da forma como os congoleses receberam os portugueses e sua religião foi o retorno dos reféns [africanos] em 1485. O rei e a corte demonstraram enorme alegria com a sua volta, ‘como se todos fossem mortos e ressuscitados’ (…). Diz Mac Gaffey que eles certamente foram vistos como sobreviventes de uma iniciação excepcional nos poderes dos mortos, sendo o batismo prometido pelos visitantes uma iniciação numa nova e mais poderosa versão do culto dos espíritos locais.

Na cosmologia congolesa contemporânea, o mundo está dividido em duas partes complementares: este mundo, dos eventos perceptíveis, e o outro mundo, das causas invisíveis, provocadoras dos acontecimentos percebidos. O mundo visível é habitado por gente negra, que nele aparece e dele desaparece através do nascimento e da morte, e que experimenta tribulações provocadas em grande parte pela ação de forças ruins, contra as quais as pessoas buscam a proteção dos poderes voltados para o bem. O mundo do além é habitado por ancestrais e espíritos diversos, que afetam a vida das pessoas deste mundo, diretamente ou por intermédio de algum líder religioso. Para os bacongos, todo acontecimento excepcional, bom ou ruim, é explicado com referência ao outro mundo, e os seus rituais estão centrados na água ou em túmulos, as duas principais vias de comunicação entre os dois mundos. (…)

(…) Para entender o efeito psicológico da aparição dos portugueses para os congoleses, é necessário saber o que o mar significava para eles. (…) acredita-se não haver dúvida que o oceano era para os congoleses domínio do além, uma via de acesso para o outro mundo, espaço no qual estavam os mortos, que seriam brancos como os albinos. Dessa forma, (…) a aparição dos portugueses no Congo foi um acontecimento traumático, e, por terem vindo do mar, eles pertenceriam ao domínio do sagrado.

Para os bacongos, os mortos têm cor branca, requerem homenagens, presentes e obediência, e podem conferir algo de seu poder aos vivos, que devem todos os seus dons a alguma forma de contato com eles. (…) Dessa forma, o retorno dos reféns em 1485 teria sido visto como uma volta do mundo dos mortos, e tudo o que eles viram em Lisboa tornou-se imediatamente alvo do mais intenso desejo, uma vez que dizia respeito aos reinos da sabedoria, à fonte do poder, do conhecimento, da riqueza.

Os brancos portugueses, vindos do mar, aparelhados de coisas nunca vistas e cuja eficácia foi logo comprovada, ofereciam insistentemente sua orientação na iniciação desse culto, que parecia ser mais poderoso do que os até então conhecidos. (…) Os brancos trouxeram novos objetos sagrados e novos ritos, prontamente incorporados pelos chefes, que dessa forma tiveram seus poderes fortalecidos, a ponto de acatarem as exortações dos padres e ordenarem uma grande queima de minkisi. A eliminação desses objetos religiosos utilizados por alguns sacerdotes não era acontecimento raro na sociedade congolesa, pois muitas vezes eram tidos como meios utilizados por chefes menores para alcançar objetivos pessoais, sentindo-se os grandes chefes, com isso, ameaçados. Assim, muitas vezes a queima de minkisi estava ligada à disputa entre líderes religiosos e políticos. (…)

MacGaffey argumenta que o padrão estabelecido logo nos primeiros contatos permitiu que Portugal e o Congo, por séculos, se relacionassem orientados por pressuposições falsas, mas eficazes, tomando-se conceitos análogos como idênticos. Assim, as estruturas nativas foram, em grande parte, conservadas, cada povo lendo a realidade conforme as suas concepções. (…)

Nos primeiros tempos da cristianização, os objetos sacramentais cristãos foram chamados de minkisi pelos próprios missionários, que buscavam assim equivalências no universo congolês, utilizando a designação local corrente para objetos de uso religioso e passando por cima da enorme diferença de significados que eles tinham para as duas religiões. Da mesma forma os missionários eram chamados de nganga e, como estes, ocupavam lugar fundamental na realização de ritos (…)

Inseridos em universos culturais completamente diferentes, congoleses e portugueses criaram um campo de compreensão mútua a partir do qual se desenvolveram os ‘mal-entendidos’ propiciados pela leitura dupla dos mesmos eventos e idéias. O interessante é tentar entender como as diferenças tornaram-se similitudes (…), como do encontro das duas religiões, dos seus sacerdotes e seguidores, nasceu o que vem sendo chamado de catolicismo africano, que aceita vários elementos do cristianismo e combina de forma dinâmica as diferentes cosmologias.

(*) Jaqueline Freitas é jornalista, professora e pesquisadora autônoma, graduada em Comunicação Social e pós-graduada em Educação,com especialização em Docência do Ensino Superior. Iniciada no candomblé por Tata Talissa, raiz Tumba Junçara, em 1997, confirmada por Lemba como sua primeira Makota.

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