Tata Kisaba Kavinajé(*)
A tradição perpassa muito das nossas preocupações. O assunto é recorrente em conversas, artigos e discussões no dia a dia. Mas como tem evoluído o estudo da tradição? O tema tem sido objeto de estudos há alguns anos. A antropologia e os pesquisadores individuais têm dedicado grande parte dos seus trabalhos à discussão de questões voltadas ao relacionamento do homem na sociedade tribal e à organização dessas sociedades, e também às suas crenças práticas e seu paralelismo em relação ao momento atual (modernismo e contemporanismo).
No início, o estudo seguia basicamente o contexto descritivo, isto é, fundamentado apenas na caracterização dos diferentes tipos de atuação e procedimentos ritualísticos nas diversas organizações e instituições religiosas ou de eventos específicos, porém com pouca preocupação interpretativa, mas sempre visando conscientizar e explicar o “por quê” desses eventos. Ou, ainda, o normativo de cunho mais “filosófico”, isto é, uma preocupação muito grande em prescrever o que era bom, ruim, justo, certo ou errado, sem, contudo, se preocupar em apontar e realmente justificar as assimilações e miscigenações intraculturais.
Ao longo dos últimos anos, a busca pelas tradições e originalidades evoluiu. Com o advento do movimento apelidado de “Tradicionalismo Bantu”, caracteristicamente comportamentalista, e os anseios e angústias daqueles que desejam e que objetivam resgatar o congo-angola e principalmente a identidade destes cultos, originalmente de natureza étnica bantu, muito tem se conquistado.
A meta estabelecida nesse movimento sempre foi o estudo do “comportamento” e da indubitável vinculação aos ritos tradicionais iorubanos, nagôs, entre outras tradições. Essa expectativa levou-nos a adoção de técnicas de buscas específicas, por meio de obras, contatos com pessoas mais velhas e mesmo à utilização da internet enquanto meio disponível. A coleta e análise de informações, advindas especialmente das pesquisas e também das trocas, inicialmente, nos causaram grandes preocupações, posto que, não desejávamos generalizar e/ou criar ou impor “modelos” e “tipologias” de comportamentos duvidosos, irresponsáveis e/ou tentarmos justificar qualquer possível invenção. Mas incontestavelmente nos vimos frente a uma nova perspectiva, talvez perdida, ou mesmo adormecida, mas que precisava ser resgatada. Assim, aos poucos e na medida do possível, e ainda, com o devido respaldo, vamos implementando e materializando os “achados” históricos, culturais e religiosos.
Ao longo desses últimos anos os cultos religiosos afro-bantu, em algumas jinzo, cresceram, tomaram forma e vida. Um novo impulso, em decorrência desses estudos e do interesse de muitos que, no começo, se mostravam contrários ao resgate tem sido atualmente comprovado. Os tradicionalistas trazem consigo a abordagem da antropologia e provocam impacto com suas descobertas e pesquisas. Muitos desses estudiosos passaram a ser achincalhados, deturpados, criticados e até conquistaram um lugar de destaque – por vezes negativo – no ambiente religioso e não há estranheza quando lemos os seus nomes expostos em sites desenvolvidos unicamente com o propósito de denegrir suas imagens e colocar em xeque os seus achados.
Mas, isto não nos desanima, pois, um grande número de intelectuais das áreas supracitadas, sociologia, filosofia e também lingüística, vêm se envolvendo e se esforçando, como numa guerra, cujos vencedores serão, futuramente, as novas crias. Esse processo de retorno ou retomada das origens africanas, cresce a cada dia e está despertando o interesse dos jovens, estudiosos ou recém iniciados, causando, sem qualquer dúvida, uma grande insegurança naqueles que continuam presos a um passado apenas oral e inconsistente em seu contexto lingüístico e/ou até ritualístico e litúrgico.
Com os estudos e pesquisas o que se vislumbra é subsidiar o que nos tem sido repassado em todos esses anos e processarmos, não o purismo, mais algo bem próximo da realidade dos nossos antepassados bantu. Portanto, ao contrário do que muitos pensam, ou tentam imputar aos estudiosos, ninguém espera receber o apoio maciço e geral da comunidade religiosa. Menos ainda se pretende inventar algo novo, sem referendum, mais tão-somente sistematizar o que já possuímos, acrescentando, de forma coerente, os frutos amadurecidos dessa colheita. Cabe a cada sacerdote, num movimento conjunto, envolvendo toda a sua comunidade, refletir sobre o que será melhor e mais adequado para a sua instituição.
Vários são os estudantes de mestrado e doutorado, muitos de origens africana, que buscam referendar as suas pesquisas principalmente estimulados pela força de vontade dos brasileiros, seguidores dos cultos afro-bantu. Verifica-se uma necessidade premente em aprofundar-se e resgatar todo um legado religioso, histórico e cultural que, pelo holocausto escravista, se encontra restrito a alguns poucos ou simplesmente desaparecido. Percebe-se que, a partir de um elenco de estudos e pesquisas similar ao que ocorre em vários outros segmentos, aos pouquinhos, tem se constituído uma base organizacional, sistematizada, que está sendo desenvolvida de forma a deixar registrado tudo que seja capaz de justificar as nossas práticas, não apenas como mais um culto tribalístico, mas como uma Religião fundamentada em princípios e essências autênticas, fruto da crença, da ontologia, da mítica e da magia que por longo tempo serviu de alicerce aos nossos ancestrais.
No Brasil, ainda que sob julgamentos deturpados ou maldosos de muitos seguidores, que se auto-intitulam sábios conhecedores dos ritos litúrgicos, vemos surgir vários espaços de ensino e pesquisas, palestras, congressos, encontros, apoiados por instituições não-governamentais, porém, não menos respeitadas, objetivando única e exclusivamente o debate em torno dessas novas evidências justificadoras da essência vital africana. Não se pode afirmar que estamos diante de um movimento político-popular do nível dos que foram defendidos por Lutero ou por Martim nos Estados Unidos, mas já demos alguns passos bem largos e acreditamos que – se ao invés do egoísmo, ou do estrelísmo, ou das críticas destrutivas – nos uníssemos, certamente já teríamos superado muitos paradigmas e estaríamos bem mais próximos da meta pretendida.
Assim, considerando a expansão do número de pesquisadores e a inevitável consolidação desse movimento que hoje percorre o mundo, e ainda que diante das críticas destrutivas partidas, em excesso, daqueles cujo comportamento individual – pobre – visam apenas uma perspectiva indutiva, pedimos mais tolerância e vontade na busca do resgate da identidade afro-bantu. Ressalte-se que todos almejamos uma religião fundamentada, que seja sedimentada a partir de princípios, essências e análises refinadas e também de críticas reflexivas baseadas, não apenas nos conceitos afro-brasileiros, mas aprofundadas e respaldadas por fatos históricos, culturais e religiosos, capazes de extrapolar os simples modelos e/ou teorias, bem como as possibilidades exclusivistas, individualistas e pessoais.
Resgatar as tradições afro-bantu não significa destruir o que chegou até nós, pelo contrário, tudo que se deseja é uma aproximação ainda maior da realidade vivenciada por aqueles que são os verdadeiros responsáveis por nossa existência, enquanto seguidores da Religião Tradicional Bantu.
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
