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Artigos: Jogos entre os Quiocos

Nibojí, 28 de junho de 200815 de agosto de 2012
Tata Lembadilê

 

O conceito de jogo como atividade física em exercícios ordenados e salutares andava ainda nos anos 40/50, arredado dos hábitos dos povos da Lunda, que se entregavam principalmente aos jogos de destreza e aos passatempos, expressões que quebram a rotina do trabalho no campo e outras atividades regulares, contribuindo estes para reforçar a solidariedade dos diversos grupos. Entre os exercícios físicos mais freqüentes temos a escalada de árvores, passagem de iniciação e competições na disputa de caça e pesca. Além das danças e cantares que constituem as suas diversões mais comuns referimos alguns jogos que se desenrolam normalmente no solo, que também servia de assento e mesa.

Enquanto o antigo tecelão podia orgulhar-se do que criava, preparando o simples fio para uma peça final que trazia a sua marca de fabricação, o trabalhador hoje, ao executar apenas uma operação de rotina raro encontra na atividade profissional oportunidade de criar, de exprimir a sua individualidade e daí, p não sentir as alegrias que acompanham a realização de uma obra. Sendo, portanto fora das horas de trabalho que, procura Ter satisfações indispensáveis à sua estabilidade emocional na recreação sadia e entretenimentos. Por detrás dum passatempo há sempre um problema de cultura que exerce ação criadora nas crianças e distrai os adultos.

Possuem os povos do nordeste angolano uma razoável quantidade de brinquedos, adaptando cabaças, caniços, juncos, bordão, frutos, conchas, etc. Entre estes distinguimos: bonecas, miniaturas de automóveis, aviões, armas diversas, miniaturas de instrumentos de música e armadilhas. Servem também de entretenimento o jogo de cordel com um fio entrelaçado nos dedos das mãos, do qual conhecem várias sortes e as figurinhas articuladas tipo títere ou marionete, que exibem presas aos dedos dos pés, batendo com as mãos levemente nas pernas fazendo movimentar as figuras ao som de cânticos…

TSHELA – Jogo muito estimado e de grande tradição entre os povos de cultura Lunda-Quioca. O tabuleiro era segundo a praxe, feito na altura em que falecia um importante chefe. O mestre pegando no dedo médio da mão direita do defunto coloca-a sobre o tabuleiro para marcar a carvão, as 28, 32 ou 36 casas que formam o jogo. Assim o que foi seu grande chefe, lhes deixa um passatempo para dele se lembrarem.

Geralmente jogado por adultos é, na maior parte das vezes, improvisado no chão e já temos visto gravadas em rocha as covinhas do jogo tshela. Às extremidades do tabuleiro chamam “maholo” onde guardam as pedras que designam por “sache”. Às casas dão o nome de “maswe” quando se trata de tabuleiro de jogo ou “mena” quando são abertas no solo. Cada jogador dispõe ainda de duas casas (uma do seu lado direito e outra ao centro das filas) a que chamam “mitwe” cabeças, pontos estratégicos para mudanças. Tal como no xadrez, as pedras representam pessoas que conforme as sua posições vão ganhando a batalha fazendo prisioneiros. É colocada uma pedra em cada casa ou cova, com mudanças no sentido inverso dos ponteiros do relógio, tendo por finalidade “papar” as pedras do adversário.

É conhecido em grande parte do mundo e supõe-se que a sua origem seja árabe. Junod, assinala-o na Palestina, Índia, Indochina, Ceilão e Java.

KENDU – Jogo idêntico ao “tshela” com reduzido número de casas e pedras, bastante mais próprio para jovens participarem. Tem sete jogo geralmente 10 casas ou covas e 20 pedras. Também se pode empregar o tabuleiro do “tshela” para jogar “kendu”, utilizando apenas as casas necessárias. É como o anterior jogado por duas pessoas, juntando sempre muita gente a testemunhar o interesse que tem este jogo. Tanto um como o outro servem de entretenimento nas horas de lazer e ainda nos demorados óbitos (durante os quais queimam plantas aromáticas e peças de caça inteira, fumam e bebem).

RIMBO – Jogo marcado no solo em forma de espiral representado ao centro o “rimbo” (residência do rei), onde jogador pretende ir e, se não tiver sorte, pode não sair. Intervêm neste jogo várias pessoas que, em jogadas alternadas (com 4 pedaços de cascas, moedas ou qualquer peça que tenha faces distintas), vão vencendo dificuldades até chegar ao “riombo”. Os conjuntos de faces iguais marcam um ou dois pontos, dando direito a prosseguir em jogo, os ímpares nada marcam e perde a jogada. Ficando as pedras sobrepostas joga de novo e, quando raramente sucede ficar uma pedra de pé, dizem que ganha “djamba” (elefante) e marcam 3 pontos.chagados ao “rimbo” só é permitida a saída depois de ganharem três vezes consecutivas. Os que ganham ficam, em tempos recuados, com direito à liberdade e a receber várias coisas: instrumentos, conchas, pedaços de metal, missanga, criação, tabaco, bebidas, mantimentos, tecidos, armas e até pagarem as dívidas ao carcereiro (banca) e a quem teve a sorte de ganhar.

RIMBO RYA MWAMUKALANGANZA – (Residência do rei Mwamukalanganza) Jogo verbal baseado na memória referido às dificuldades que existem para qualquer pessoa entrar no rimbo ou murimbo (forte). É representado por 10 covas ou montículos de terra, que designam por nomes de notáveis de povoações que dificultam o acesso ao murimbo. Quem se enganar no enunciado dos nomes (sempre de costas para o jogo) fica sujeito a multa e quem os desconhecer completamente, não entra no forte de Mwamukalanganza. Espécie de senha exigida a estranhos que pretendiam entrar nas povoações fechadas (com fossos ou fortes paliçadas de troncos), que conduzem à presença de grandes chefes Lunda-Quiocos, para se fixarem, fazer visitas ou resolver contendas. Lembrando ainda a estratégia defensiva de grupos que lutam desesperadamente pela sua independência, entre uma natureza agreste, feras e povos inimigos; onde cada homem era um soldado, nesta África com guerrilhas tribais e sacudida pelos choques de povos anteriores em plena migração. É natural que estes redutos servissem também para defender as suas modestas indústrias de cobre e de ferro (segredos de fundição). O desenho deste jogo lembra a forma do corpo da “nay wa tshingungo” (rainha da salalé).

À medida que vão fazendo as 10 covas ou montículos de terra (residências de miyata de corte de Mwamukalanganza), que o interessado terá que atravessar antes de chagar à presença do rei, perguntam:

– Murimbo ryaia ? (de quem é esta povoação?) (é do rei Mwamukalanganza)

– Amu ? (aqui ?) mwanjiria (é a entrada)

– Amu ? (aqui ?) mwatuhukia (é a passagem)

– Kambwambwafula (nome dum mwata)

– Fulaikoto (nome doutro mwata)

– Luange (nome doutro mwata)

– Luange ryko (nome doutro mwata)

– Mutshimbo (nome doutro mwata)

– Mutshimbo (nome doutro mwata)

– Gwandija (chegou à presença do mwata Mwamukalanganza)

MBAMBA MUTAI – Curioso jogo de palavras tendo por base um diagrama formado por um triângulo com 55 covas ou montículos de terra (dez de cada lado), representando pessoas e mais 5 formando cauda que representam um cão, uma ave, um peixe, um lago e uma árvore que tem somente uma folha, onde se esconde MBAMBA MUTAL.

* – Mutondo wasoka ryfo (árvore que tem uma folha)

* – Ajia asoka mutondo (lago que tem uma árvore)

* – Kekele yanjia (peixe que entra no lago)

* – Kajia yahuma kakele (ave que persegue um peixe)

* – Kawa kenhe yahuma kajia (seu cão que persegue uma ave)

* – Lunga umwika yahuma kawa kenhe (um homem que persegue o seu cão)

** – Malunga ahary yahuma lunga umwika (dois homes que perseguem um homem)

** – Malunga atatu yahuma malunga ahary (três homens que perseguem dois homens)

** – Malunga awana yahuma malunga atatu (quatro homens que perseguem três homens)

** – Malunga atanu yahuma malunga awana (cinco homens que perseguem quatro homens)

** – Malunga asambanu yahuma mauga atanu (6 homens que perseguem 5 homens)

** – Malunga shimbyar yahyma malunga asambanu (7 homens que perseguem 6 homens)

** – Malunga nake yahuma malunga shimbyar (8 homens que perseguem 7 homens)

** – Kume rya malunga yahuma malunga ryvua (10 homens que perseguem 9 homens)

Para ganharem os participantes neste jogo – bom exercício de memória – terão de dizer as frases construídas, começando por um homem que persegue o seu cão, seu cão persegue uma ave, etc., repetindo toda esta lengalenga para 10 homens, 20 homens ou mais. Logo que o jogador se engana, fica sujeito a multa que reverte a favor do grupo, dando o seu lugar a outro.

MBAMBA MUTAI – Será como um símbolo destro do organização social dos Quiocos procurando agrupá-los em torno dum ideal, apoiado nas cerimônias de iniciação. Aos circuncidados durante o retiro surge em forma de hino, que cantam diariamente ao nascer do sol. Nas cerimônias de consagração, ou seja, para os homens o “zemba” tem Mbamba mutai papel preponderante servindo de patrono aos neófitos. Faz ecoar sua misteriosa voz – através dos lagos, rios, florestas e savanas da Lunda – servindo-se duma folha – como alto-falante – e também do personagem “mbongu” – gigante de enormes proporções capaz de vencer as maiores distâncias e curto espaço de tempo. MBAMBA MUTAI chamam também os Quiocos ao peixe MUMBAMBALA (Polypteros ornatipinnis Boulenger), vulgar nos rios da bacia do Cassai, que salta para as pedras ou plantas e emitia sons semelhantes aos humanos atraindo pessoas.

Este jogo é também conhecido no Senegal e outros pontos de África.

JUSTE – Jogado por dois indivíduos, cada um com três pedras distintas que pretende colocá-las em linha, em jogadas alternadas, ao que o adversário se opõe.

NGOMBE – Intervêem dois jogadores com 11 pedras geralmente de rícino, feijões, etc.. o jogador apanhando uma pedra de cada vez com as duas mãos alternadas, consegue numa juntar 8 e na outra 3. As pedras representam duas famílias (pai, mãe e filho) e 5 bois. Os círculos laterais representam as duas famílias (pai, mãe e filho). Os rapazes resolveram ir armar aos pássaros e encomendaram cinco bois. Trataram logo de dividir o gado e foram chamar os pais. Nisto apareceram os donos do gado apenas com 3. O truque consiste em levantar as pedras (bois) sempre com uma das mãos e recolocá-las inicialmente com outra, que fica só com 3 pedras (família), ficando a outra com os cinco (bois) roubados mais o rapaz, pai e mãe.

MUBELA WA KATAPI – Os jogadores vão lançando ao ar 4 cascas de amendoim; os pares de faces iguais marcam um ou dois pontos, que riscam ao longo do desenho ganhando o que primeiro encher o seu lado.

Acerca deste jogo contra Muatchimbau, da tribo Quioca, filho do mwata Sakariela que: existiu um grande jogador que nunca perdia, sua fama era tal que um dia veio jogar, ele “Kalunga” (Deus) e também perdeu muitas coisas. Foi então convidado por “Kalunga”, a visitar o “Céu” onde voltou a ganhar. Quando já tratava do seu regresso avistou filhas de “Kalunga” tomando banho num rio e, reparou principalmente numa que lhe pareceu bela; aproximando-se viu um anel no chão e logo tratou de o esconder. Passado algum tempo as raparigas afastaram-se ficando a que lhe pareceu mais formosa à procura do seu anel, prometendo a quem lho encontrasse ficar sua noiva; foi então que o homem apareceu e lho entregou. Dali seguiram à presença de “Kalunga”, que não se opôs ao casamento e ambos vieram para a terra, onde construíram uma vistosa casa. Passados tempos o famoso jogador de “mubela” resolveu ir visitar a família e, chamou para sua companhia, uma prima sua antiga conversada; desde essa altura, a mulher lhe tinha dado “kalunga” desapareceu e assim se desfez o seu agradável sonho.

KAMANDA – Jogo que requer destreza de mão. Consiste em apanhar, deixar cair e voltar a apanhar certo número de pedras, 8 por exemplo, mantendo-se no final numa das mãos 7 pedras e na outra apenas uma. Jogo simples com algo de ilusionismo, que o mestre ensina mediante pequena retribuição.

Fonte:Fontinha Mario.Desenhos na Areia dos Quiocos do Nordeste de Angola

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