Vunji — Deusa da justiça.
Antes de ser evocada, pode manifestar-se no ventre materno, pela ausência do catamênio (menstruação), desde o último filho referente ao fenômeno, isto é, a mulher alcança sem o aparecimento do mesmo.
O tratamento da mulher nesse estado consiste no uso de folhas pulverizadas, mel e rícino. Os pós ficam em chifres de palanca (antílope semelhante ao boi), corça e no casco de uma tartaruga pequena; e, em cabacinhas os outros ingredientes, bem como uma mistura dos aludidos pós. O rícino serve para defumações e fomentações, e o restante, para ingerir.
Além dessas drogas, um sacerdote dessa divindade prepara, mas em possessão, a lagoa da Senhora Vunji — uma panela de barro com dois borgaus(**) e água simples. Com a água dessa «lagoa», sempre renovada quando se esgota, a paciente temperará freqüentemente os seus banhos, acontecendo outro tanto com as futuras lavagens do filho quando já estiver crescidinho ou por ocasião de doença, até o nascimento do seguinte.
O ocultista chamado a tratar este acidente, no final do ritual — adivinhação e prescrição terapêutica — deita pemba para dentro do bico duma galinha de penas ouriçadas e profere:
— Aqui está a tua casa, Senhora Vunji!
A ave conserva-se para criação. Os ovos ou crias são vendidos, revertendo o produto para o dizaco (retalho novo de pano cru, sacramentado com pemba ou cinza) de Vunji, isto é, o mealheiro místico consagrado a essa divindade, e o qual se destina à compra de apetrechos necessários ao culto, como mel, rícino, e, quando em visita ao pai-de-umbanda, brindes de tabaco e vinho. De quando em quando, também se pode adquirir, com esse mesmo dinheiro, qualquer peça de vestuário, quer o eleito seja criança, quer adulto, podendo este — o eleito — comer, sem dispêndio, alguns ovos ou crias.
Se a dita galinha morrer sem ter deixado prole, o ocultista deverá repetir a operação da pemba noutra galinha da mesma espécie.
A vunjidade, ou, correntemente, mediunidade, pode ocorrer, não só no ventre materno — vunjidade congénita (nvunji iovale) — mas também depois do nascimento — vunjidade por simpatia (nvunji ia ukamba). No primeiro caso, a vunjidade é maligna; e no segundo, benigna.
Quem, na presença de criatura eleita no período pre-natal, se lamentar, vê concretizado o seu desejo de justiça. Para obstar a esse mal, deve acrescentar no final do queixume: «Senhora Vunji, o que disse, não é para ti. Apenas desabafei com o meu amigo (ou amiga).»
Se, pelo contrário, o acidente se manifestou após o nascimento, nada de anormal advém de uma lamúria.
Conforme a procedência, verificada por adivinhação, assim a vunjidade pode resultar: ou por efeito de afeição (nvunji ia kazola); ou da geração (nvunji ia muiji); ou ainda de um crime outrora praticado por um parente na pessoa de um fiel a essa entidade (nvunji ia kituxi).Estas duas últimas proveniências, em regra, respeitam à via materna.
Em punição, a sua justiça revela-se através de qualquer das seguintes enfermidades: anemia, o que acontece mais vulgarmente, enfraquecimento da vista, tosse seca.
Luango — Divindade congénere de Vunji.
Também se manifesta no ventre materno, mas pela continuidade do mênstruo, embora aguado, durante a gravidez. O fenômeno só se opera após a revelação de Vunji. Portanto, é seu imediato em manifestação natal.
Para se debelar a anomalia, o quimbanda, apurada divinatóriamente a causa, atira para o ar, mas em frente, uma pitada de pemba, rogando:
— Se és Luango de verdade, pare o sangue, que aqui está a tua pemba !
Ainda semelhantemente a Vunji, também prepara a respectiva «lagoa» — a dita panela de barro contendo água simples e dois borgaus. Serve, como no caso apontado, para o mesmo fim.
No final da liturgia, igualmente deita pemba para dentro do bico, não duma galinha, mas dum galo, também da mesma espécie, proferindo:
— Aqui está a tua casa, Senhora Luango!
O preceito adotado para com Vunji, estende-se a Luango, quer no concernente aos banhos, quer à ave.
Kisanga — Auxiliar de Vunji.
Em nascimento, é o imediato a Luango. Mas não se caracteriza por nenhuma particularidade.
(**) Pedras redondas amareladas que aparecem no mar ou rio.
Fonte: Ribas, Oscar. Ilundo, Divindades e Ritos Angolanos.
