Palestra proferida por Tata Kisaba Kavinajé (*) no 2º Ecobantu realizado no Plenário do Parlamento Latino Americano – Memorial da América Latina
O encontro revelou a grande preocupação dos vários segmentos (artístico-cultural e religioso) com a manutenção de suas práticas e origens, entre elas: yoga, a meditação e o relaxamento, as artes marciais e o contato com o aspecto espiritual inerente a todos nós, como meio mítico de equilíbrio físico, emocional e mental.
Muito se falou sobre a dualidade da vida, na qual estamos inseridos e demonstramos isto pelos sentimentos de amor e ódio, de alegria e tristeza, de coragem e medo, entre muitos outros. Parte de nós ama e outra parte tem medo de amar. Uma outra parte busca avançar em suas tentativas de descobrir-se e outra se mostra receosa e descrente nesta possibilidade. De concreto parece comprovar-se apenas que a dualidade Divina é na verdade Una, ou seja: Uma parte é Amor e a Outra ama e acredita.
Assim também é o universo religioso-cultural afro-banto. E, exatamente a partir desse intróito, que concentrarei o que tenho a dizer. A amplitude do tema proposto “Identidade Cultural”, me conduziu a centrar as minhas palavras no seguinte subtema:
A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO PARA RECONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE TRADICIONAL BANTO NO CERNE RELIGIOSO AFRO-BRASILEIRO.
A consciência dessa necessidade permite aos Tat’etu, Mam’etu, Makota, Munzenza, Ndumbe e também aos estudiosos, iniciantes como eu, respeitando, evidentemente, a postura relutante de alguns mais velhos, uma reavaliação dos feitos cotidianos em nossas respectivas casas. Daí, perguntamos-nos: Será que nossas práticas são incontestáveis? Se há dúvidas, o que de fato estamos fazendo para rever o que praticamos? E se há convicção sobre o que praticamos, porque temos medo e continuamos nos apoiando na frágil crença de que nos foi repassado tudo e que esse suposto “tudo” é uma verdade incontestável no contexto mítico banto?
Estas e outras perguntas merecem que reflitamos sobre o conhecimento que apreendemos e hoje repassamos aos nossos mais novos. Não devemos jamais desprezar a possibilidade e a oportunidade de tentarmos resgatar os vínculos de subjetividade, de identidade e de significado da essência e da religiosidade para os nossos antepassados bantos.
No contexto atual, o zelador precisa reavaliar o seu papel de Pai, Mãe, formador e transformador de opiniões, repensando, com consciência, o seu próprio Ser, o seu modo de agir e de vivenciar as evidências cotidianas. Não nos esqueçamos que o zelador de amanhã poderá ser idêntico a nós hoje.
Neste momento, não há mais espaço para expressões como: “não está na hora de você saber disso; faço assim porque foi dessa forma que aprendi”, e menos ainda para aquele velho e superado chavão: “em time que está ganhando não se mexe”.
Em time que está ganhando, se desejamos um resultado mais expressivo e efetivo, é possível e devemos mexer sim. Quanto aos costumeiros: “não está na hora de você saber disso, e foi assim que eu aprendi”, lamentavelmente os seus autores ainda não perceberam que eles se tornaram insuficientes e não satisfazem mais os anseios daqueles que perguntam. Foi-se o tempo da oralidade obrigatória, do analfabetismo e das limitações culturais peculiares ao período escravista.
Os homens são criaturas pensantes, racionais e voam. A todo instante transmutam adaptando-se ao meio em que vivem. Esse ajuste, entretanto, não os tornam completamente livres, mas também não altera a sua individualidade e unicidade.
Intrinsecamente essas relações se processam de acordo com as características religiosas e culturais, respeitando-se os padrões de comportamento que, por vezes, os distanciam de suas essências e histórias pessoais, de seus grupos de referência e das suas origens tradicionais.
Mas, independente dessa vontade individual, a mutação humano-cultural, por uma exigência coletiva, permite-lhes refletirem, transformarem e, em sendo o caso, readaptarem-se conforme as perspectivas e a dinâmica do sujeito e a comunidade sócio-religiosa e cultural a qual pertence.
Tão complexa engrenagem quase sempre, pelas diferentes formas de compreensões, e pela não aceitação do óbvio, termina por enfrentar reações que renegam “achados” que podem conduzir-nos a mudanças expressivas. Mesmo assim, normalmente os precursores desse embate, nos seus interes e nos bastidores de suas casas, reproduzem, muitas vezes de forma inconsistente e sem o devido respaldo e responsabilidade, o objeto de suas próprias críticas.
Por isso, ao falarmos em resgatar conhecimentos para reconstruirmos a identidade religiosa e cultural bantos, necessariamente precisamos submeter-nos a um processo catársico no qual uma profunda reflexão pessoal se revela inevitável. Essa construção e reconstrução exigem pesquisas, estudos, absorção de conhecimentos, ações objetivas e dedicação quase exclusiva. O diálogo é fundamental e as provações são constantes. A dúvida, a polêmica, o estilo dialético e a sabedoria são primordiais.
Essa angústia – própria dos seres humanos – na qual a racionalidade, a neutralidade, a autocrítica somam-se a um sistema de valores onde a aproximação, os limites e a incompletude são reconhecidos, tem sido a razão das incansáveis buscas e lutas de algumas pessoas como Tata Katuvanjesi, coordenador deste evento, Tata Otawogeleoci, Tata Otuajô e de muitos outros que têm cedido seu precioso tempo aos estudos e trazido-nos relevantes contribuições para afirmação da identidade cultural banto, que ao longo dos tempos tem sido completamente descaracterizada pela assimilação sincrética e superposição e influências de outras tradições étnico-culturais e religiosas.
Esses paradigmas – de difícil superação – aos poucos têm sido rompidos e ultrapassados. Para tanto, algumas iniciativas se fizeram necessárias. Uma delas foi a criação, através de Mam’etu Nibojí e minhas filhas, em 02 de novembro de 1998, do FÓRUM DA NAÇÃO BANTU (Fórum de Angola), cujas primeiras sementes foram plantadas, naquela oportunidade, por um restrito número de integrantes e hoje, setembro de 2004, após seis anos, ultrapassou o total de 1200 membros com participações e contribuições construtivas – fruto de incessantes pesquisas sobre a história, cultura e religiosidade bantos – e também críticas destrutivas (fruto do despreparo e da implacabilidade dos autoritaristas e ignorantes).
Hoje contamos com o PORTAL RITOS DE ANGOLA , http://www.ritosdeangola.com.br – que possui, atualmente, mais de 300 cadastrados e já ultrapassou as fronteiras brasileiras. Vários têm sido os estudiosos e seguidores das tradições afro-banto que nos escrevem, incentivam e até enviam textos e sugestões literárias visando subsidiar o nosso trabalho. Outros, entretanto, numa visível pobreza de espírito, também usam seus tempos para, improdutivamente, tentarem nos desestimular, criticar e exporem os seus pseudos conhecimentos acerca das tradições religiosas, mas a estes avisamos: não desistiremos jamais. Vamos adiante com os nossos propósitos, pois buscamos aprender, acrescentar e informar e não abriremos mão desse direito e espaço ora conquistados.
Nós, seguidores dos cultos bantos, estamos convictos de que possuímos linguagem, costumes e tradições próprios e por mais que tentem retardar, brevemente, esse reconhecimento será majoritário. E mais, não adianta criticar aqueles que recorrem às literaturas e à internet em busca de informações; vivemos a era da comunicação tecnológica virtual e a rede mundial de computadores é, no momento, enquanto mídia, a mais ampla, completa e acessível biblioteca disponível.
No Instituto Legislativo Brasileiro, órgão executivo da Universidade do Legislativo (UNILEGIS), no qual exerço as minhas atividades profissionais como Autor, Professor-Tutor e Coordenador de Projetos para Tecnologia da Educação a Distância, atualmente, valemos-nos da internet por meio do site http://www.senado.gov.br/ilb para disponibilizar aos países da América Latina, bem como aos africanos de língua portuguesa, como Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, entre outros, cursos de treinamento e capacitação profissionais, o que só vem a referendar o reconhecimento do Brasil para com os nossos irmãos africanos, precursores da formação sócio-cultural e religiosa do povo brasileiro.
Finalizando as minhas palavras, cito três pensamentos que considero máximos:
· “A coisa mais difícil é a incerteza perpétua que decorre das decisões.” Tucídides em História da Guerra do Poloponeso, livro III, cap. XXXVII;
· “Pensar é fácil, agir é difícil, agir conforme o pensamento é o que há de mais difícil no mundo.” Goethe
· “A ação revela oportunidades que a inação teria deixado escondidas.” Maquiavel em Histórias Fiorentinas, livro I, cap. XIII.
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
