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Plantas e Mitos: Os seres das plantas

Nibojí, 24 de outubro de 200815 de agosto de 2012
Autor: Médico-Curandeiro Urso Pardo
Transcrito por Tata Kisaba Kavinajé (*)
No princípio, quando o Grande Criador acabou de criar o mundo, chamou todos os diferentes espíritos que o povoariam e perguntou-lhes o que gostariam de ser. Alguns desejaram ser os quatro poderes do universo, outros quiseram ser o relâmpago e o trovão, o vento, a chuva, a neve e o terremoto. Alguns espíritos ainda manifestaram o desejo de ser oceanos, montanhas, rios e riachos. Os demais espíritos desejaram tornar-se os seres das plantas, os seres das árvores, os seres animais, os seres pássaros, os seres peixes, os seres serpentes, os seres insetos, os seres das pedras e os seres humanos. Assim, cada um personificou uma pequena parcela da totalidade do que anda, rasteja, voa e nada, tanto visível quanto invisível. Juntos, eles compõem a Criação.Por meio de antiquíssimas histórias esotéricas, os Anciães transmitiram a seus descendentes formas elevadas de conhecimento, que os povos modernos só agora começam a redescobrir. Graças ao exemplo acima, aprendemos que todas as manifestações divinas possuem dois lados: o físico e o espiritual, os quais servem para compor a totalidade de tudo o que vive. Mas também aprendemos que cada elemento da Criação inter-relaciona-se como os demais e depende deles para seu funcionamento adequado e sobrevivência. Aprendemos ainda que diferentes formas cumprem diferentes propósitos e funções na Criação e, enquanto partes dela, todas se relacionam com o Grande Criador. Tal concepção filosófica desemboca naturalmente na metafísica, mas meu desejo consiste em levar o leitor um passo além e sensibilizá-lo para o fato de que a própria meta e a physica se inter-relacionam e dependem uma da outra. É possível tentar separá-las, por meio da lógica, e extrair dessa separação alguns pressupostos e conclusões fundamentais, mas, em verdade, essa separação não existe, pois o físico e o espiritual são um só.

O mesmo ocorre quando lidamos com as plantas e com as pessoas. Cada um de nós é uma parte que se relaciona com o Criador. Podemos passar a vida inteira estudando os aspectos botânicos das plantas até nos tornarmos peritos na identificação de espécies, até conhecermos a fundo a química individual de cada planta e aprendermos a empregar efetivamente o seu potencial terapêutico na cura de enfermidades físicas. Podemos desenvolver experimentos científicos com elas, até obtermos espécies supostamente aperfeiçoadas. Podemos manipulá-las caseiramente e transformar algumas dessas espécies híbridas em produtos comercialmente rentáveis. Ibdo isto funciona bem e pode até proporcionar cura a algumas pessoas sob certas condições. Porém, adicionando um toque de espírito ao processo, ele se tornará muito mais poderoso.

Os Anciães nos ensinam que existe algo mais na terra e no céu do que aquilo que nossos olhos e mente captam. Suponhamos, por exemplo, que numa incursão pela Natureza, eu apanhe um graveto, passe-o a suas mãos e pergunte: “O que é isto?” Você automaticamente responderá: “É um pedaço de madeira”. Após alguns minutos eu replicarei: “Não, é um pedaço de árvore”. Percebe a diferença?

A tradição indígena nos ensina a enxergar as coisas como um todo e a tentar decifrar e compreender a relação entre as partes que compõem a totalidade. O modo como cada peça da Criação se relaciona com as demais. Para aprender a se tornar mais eficiente no uso das plantas de cura, devemos compreender que cada planta é uma espécie do todo. Um ser vivo, dotado de mente, corpo e espírito, que pensa, sente e pode até adoecer e fenecer. Seus quatro estágios de desenvolvimento evolutivo são comparáveis às quatro fases da existência de um ser humano — nascem, crescem, envelhecem e morrem, e a maior parte dos vegetais renasce para um novo ciclo de vida.

As plantas são entes como nós, que nascem em famílias e que possuem amigos e inimigos. Algumas trabalham individualmente, outras em coletividade. Possuem personalidades individuais que sofrem influências da química, da física e do pensamento mental-espiritual, o qual fica impregnado nelas. Uma planta feliz é uma planta saudável, uma planta infeliz não é sadia. As plantas em seu habitat selvagem são mais potentes e poderosas que as cultivadas domesticamente. Plantas colhidas em ambientes naturais são dotadas de propriedades curativas mais fortes, sobretudo se forem colhidas de maneira correta e na época adequada. Coletar plantas ritualisticamente ao som de cânticos, preces e com o devido conhecimento das fórmulas de comunicação, assegura a permanência do espírito da planta em seu corpo vegetal, o que a torna mais eficaz no tratamento de doenças.

(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.

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