A POSSIBILIDADE DE ARRISCAR É QUE NOS TORNA VERDADEIRAMENTE SÁBIOS.
Se tivéssemos a capacidade ampla e irrestrita de absorver todos os ensinamentos programados (sem exceção) não suportaríamos o fardo da responsabilidade desse domínio. Isto não é uma afirmação de que somos limitados, mas uma observação de que nos limitamos! Exatamente assim o fazemos dentro dos cultos tradicionais afro-banto. Estamos muito mais preocupados em nos mantermos com o pouco que nos foi repassado, do que ultrapassarmos os nossos limites em busca não de invenções, mas sim do que permanece adormecido sobre a religiosidade professada por nossos antepassados.
Qualquer um de nós, em algum momento de nossas vidas, usa de ousadia e acaba arriscando. Isso não nos diferencia dos animais irracionais (enquanto predadores); também não nos diferencia de algumas espécies vegetais (que ousam sobreviver em lugares áridos e tórridos e em outras condições contrárias à vida); porém, quando arriscamos não só pela sobrevivência da espécie, mas pelos sentimentos intrínsecos ao Ser, então nos diferenciamos dos outros animais e das plantas. É nesse contexto que surge o Homem, com toda sua plenitude, ansiedade e beleza.
É POSSÍVEL O VÔO PERFEITO DENTRO DOS LIMITES CRIADOS PELO HOMEM?
Criamos
o nosso próprio Universo, mesmo que ainda limitado. É impossível
decidirmos sobre os passos que evitamos. Prepararmo-nos emocionalmente dentro
do espaço que construímos, da reciprocidade que ele nos proporciona,
e psicologicamente sondamos nosso ego, que sob estímulos indica-nos ser
possível “avançar o sinal”, seguir adiante, ultrapassar e buscar.
Ou caberia, no presente caso, uma ordem inversa? Será que no celeiro
afro-brasileiro assimilamos tudo sobre os ritos religiosos banto?
Na perfeição com que o Ser trabalha seus sentimentos distribui
os estímulos da mente e o organiza no corpo, abrindo assim um leque de
vontades, e nessas vontades os sonhos e fantasias são facilmente materializados.
E o vôo transcendental é concluído, segundo os nossos conceitos,
com a devida perfeição. O alcance, desde que queiramos e abramos
os nossos corações e mente, sempre será capaz na perspectiva
mitológica e metafísica banto.
A RACIONALIDADE NOS MOSTRA QUE SOMOS COMO OS PÁSSAROS E QUE LIVREMENTE PODEMOS VOAR.
O
Homem que se permite “voar”, e nesse vôo inicialmente rasante ganha a
dimensão do infinito, rompendo barreiras, ultrapassando os limites da
mesmice, desvendando enigmas e os criando novamente para poder continuar desvendando,
também constrói os tabus e com o passar do tempo os derruba. Assim
também o é no conjunto contextual da afro-religiosidade. Mesmo
considerando toda a diversidade cultural banto africana, há que se considerar
a existência de outros caminhos (adormecidos) e de ensinamentos que não
nos alcançaram por razões diversas.
Assim, enquanto o Homem existir haverá esse ciclo de busca constante
pelo engrandecimento do Ser individual e coletivo. Esse “mergulho” que o Homem
faz para dentro de si, buscando aperfeiçoar-se e evoluir, referenda a
crença de que o encontro com a Sabedoria consiste na certeza de que podemos,
devemos e necessitamos voar sempre. O resgate das tradições banto
é uma necessidade e uma realidade irrefutável e, ainda que isto
seja difícil de aceitação por muitos, alguns já
se conscientizaram de que não há volta e como no mundo tudo se
transforma, precisamos nos aproximar ao máximo das raízes que
diferenciam e caracterizam cada etnia e seus princípios básicos.
O MEDO E DESCONHECIMENTO DOS CAMINHOS NOS IMPEDEM DE IR ALÉM.
O
medo do desconhecido, do inusitado, dos conceitos éticos e morais, de
encararmos a nós mesmos, de percebermos que para alcançar “a luz
que reflete sombra na parede” e avançar, olhar no espelho diante de nós
para que possamos refletir sobre o nosso modo de vida e tentarmos enxergar o
que realmente nele está contido. É comum nada mudarmos por medo
do novo e pelo receio do que podem falar a nosso respeito. Nos preocupamos muito
mais com os outros e com o que eles pensam do que com nós mesmos e com
aquilo que efetivamente praticamos.
Esses “medos” se equivalem aos freios que nos impedem de seguir adiante, de
romper os elos que nos escravizam e que nos inviabilizam ir além do espaço
que para nós limitamos. O temor do que se pode encontrar e constatar
como fato, obriga-nos, numa evidente demonstração e prova das
nossas incapacidades, a indicar alguns culpados. Na falta de nomes específicos,
nós - enquanto seguidores da Religião Tradicional Banto - somos
os verdadeiros responsáveis por essa alienação e para reparar
as nossas covardias costumamos culpar os regimes éticos, morais, sociais,
outros segmentos religiosos e culturais, naturalmente presentes e constituidores
da diversidade brasileira. Essa atitude e assimilação, diga-se
de passagem, por muitos vista como um peso e uma responsabilidade a menos, assegura
um “tranqüilo e rendoso pasto” aos resistentes e ignorantes.
Será que as antigas senzalas (celeiros da opressão, repressão
e desrespeito aos nossos antepassados) ainda continuam existindo entre nós?
Ou “em nós”? Pelo visto foram apenas transmutados, e se antes havia uma
imposição radical contrária às concepções
míticas africanas, hoje há uma resistência desmedida e uma
demagógica crítica às buscas e pesquisas em torno dos resgates
das tradições afro-banto. E por que demagógica? Porque
muitos são os que criticam, tentam denegrir e desmoralizar o trabalho
que está sendo realizado, tentando inviabilizar a reafricanização
dos ritos e mitos, mas as escondidas alguns até têm simulado em
suas casas. Ou seja: “na prática, a teoria é outra coisa”.
Por isso, aos defensores do resgate das origens tradicionais banto, aqueles
que lutam, estudam, peregrinam e se submetem às críticas dos incapazes
e medrosos, os nossos mais sinceros agradecimentos e votos de sucesso absoluto.
“Ki Ngana Nzambi Mpungu u Kuatese!”
Tata
Kisaba Kavinajé – Espedito Marques de Azevedo, professor licenciado em
Filosofia, professor-tutor na área de Desenvolvimento e Gestão
Gerencial e Gerente de Projetos certificado pela Universidade de Brasília
(UnB) em Fundamentos de EaD, com atuação no Instituto Legislativo
Brasileiro (ILB), órgão executivo da Universidade do Legislativo
(UNILEGIS-SF).