O SACRIFICADO POVO AFRICANO
CULTURA AFRO-AMERICANA
Tata Kisaba Kavinajé
O tráfico escravista trouxe para
a América negros de diferentes etnias. Os grupos procedentes da África oriental
(Moçambique, Angola e Congo) falavam dialetos da língua banto; os da África
ocidental (Nigéria, Daomé e Costa do Ouro), dialetos da língua sudanesa. Esses
negros diferenciavam-se não só pelos traços culturais (língua, gênero de vida
e costumes) mas também pela constituição física. Ao mesclarem-se aos colonos
europeus e às populações indígenas, sofreram toda sorte de influências, ao mesmo
tempo em que contribuíam para a formação do contexto sociocultural americano.
No Brasil, por exemplo, os senhores proibiram que as religiões tradicionais
africanas se manifestassem. Mas, como compensação à dureza do trabalho imposto,
permitiram que seus escravos cantassem e dançassem nos domingos e feriados.
Como os bantos predominavam entre os trabalhadores rurais, seu folclore se manteve,
enquanto a religião se desagregava.
Os bantos, depois de um primeiro período de autonomia religiosa, que se conhece
através de documentos históricos, assistiram à transformação de seus cultos.
Por um lado, esses deram lugar à macumba; por outro, amoldaram-se às regras
dos candomblés nagôs, não se distinguindo deles senão por uma maior tolerância.
Os cultos bantos em gradativo declínio acolheram os espíritos dos índios, o
que iria levar ao surgimento de um "candomblé de caboclos", e adotaram
cantos em língua portuguesa, ao passo que os candomblés nagôs só usam cantos
em língua africana.
Ney Lopes, p.164/165 - obra Bantos e Males, Identidade Negra, diz que:"em
1941 o poderoso rei do Congo, Nkuyu, é batizado, recebendo o nome cristão de
João, ao mesmo tempo em que a capital de seu reino, Mbanza Kongo, passa a se
chamar São Salvador. A partir daí, as populações dos atuais Congo, Zaire e Angola
passam a sofrer uma violenta opressão cristianizadora. E esse é o fato gerador
de mais um preconceituoso estereótipo contra os bantu: o de que, em relação
aos sudaneses, suas manifestações religiosas seriam frágeis, sem estrutura,
um amontoado de crendices e superstições, com suas bases emprestadas à teogonia
nagô e facilmente engolidas pelo catolicismo. Mas entre os bantos famílias,
clã e tribo sempre forneceram as bases da religião, inclusive com as reencarnações
se processando, segundo a tradição, dentro do próprio grupo. Assim, se eles,
no Brasil, tomaram emprestados, ao cristianismo e as tradições jêje-nagôs, ritos
e manifestações, não foi por culpa da tão propalada inferioridade cultural.
O que os levou a isso, primeiro, foi a violência católica a que estiveram submetidos
desde o século XV; segundo, o fato de darem mais ênfase ao manismo, ao culto
dos ancestrais reais (não míticos) que ao dos Espíritos da Natureza; e, finalmente,
à brutalidade da tragédia escravista.
"Rompendo a tribo, desorganizando as etnias, dispersando os escravos da
mesma procedência, através de vastas extensões de terra - escreve Bastide (1973:240)
- a escravidão tornava impossível a conservação das bases sociais do manismo.
Provam-no os suicídios dos bantos na época colonial, a fim de que seus espíritos
fossem reencarnar na África."Mas apesar da opressão cristianizadora que
sofreram, os bantos do antigo Congo e de Angola empreenderam uma verdadeira
guerrilha religiosa contra a Igreja Católica. Suas espetaculares conversões
ao catolicismo - a maioria das vezes como estratégia política - quase sempre
foram seguidas de reconversões à religião tradicional. E o surgimento de inúmeros
movimentos messiânicos de cunho sincrético muitas vezes serviu apenas para encobrir
o anseio de libertação do jugo colonialista. Foram assim os movimentos de Francisco
Gazola em 1632, o de Apolônia Mafuta em 1704, e o de Chimpa Vita, queimada pela
Inquisição em 1706 depois de tentar a restauração do antigo reio do Congo para
libertá-lo do jugo europeu (Eduardo dos Santos, 1972:41-62).
Além disso, embora imposto de maneira quase sempre violenta, o cristianismo
sofreu nas mãos dos bantos, tanto na África como no Brasil, fortes transformações,
já que eles não adotaram passivamente os dogmas do catolicismo. O que eles fizeram
foi colocar essa religião ao seu jeito, ao seu modo, dando a ela colorido e
nuances que a transformaram num catolicismo todo peculiar, permeado de práticas
da religião tradicional negro-africana e do culto banto aos antepassados. E
isso - é claro - da mesma forma que incorporou elementos brasileiros aos seus
cultos. No Brasil, os cultos de origem banta são conhecidos pelo nome genérico
de "macumba" (RJ, SP, etc.) e os de origem sudanesa, com suas variantes
regionais, como o batuque gaúcho e o xangô pernambucano, pela denominação extensa
de "candomblé"."Tais cultos, pelo seu misticismo profundo, revelam-se
verdadeiras obras de arte."
O legado cultural e artístico banto, extremamente valioso para nós brasileiros,
em muito tem se perdido. A capoeira, de Angola, por exemplo, antigamente praticada
pelos valentões, perdeu o caráter agressivo devido às perseguições policiais,
transformando-se numa luta corporal de intensa beleza plástica.
Os contos africanos se mantiveram, podendo ser divididos em dois tipos: contos
de animais, cuja origem é difícil de ser identificada, uma vez que existem variantes
em diversas etnias africanas, e contos de grandes fantasias, que também têm
correspondentes africanos.
Um ruidoso acompanhamento instrumental
de percussão marca os folguedos chamados congos, congadas ou ternos de Moçambique,
que em geral são vistos como o que há de mais especificamente africano no folclore
brasileiro. Sua temática fundamenta-se em costumes sócio-políticos das terras
de origem. Nos congos, em meio a bailados, exibições de agilidade e danças de
bastões ou espadas para marcar o ritmo, é sempre feita a coroação do rei negro,
enquanto embaixadas e cortejos dialogam sobre a paz ou a guerra.
No Brasil, a radicalização do modo urbano de vida causou uma mudança dinâmica,
e também radical, nas tradições religiosas de procedência africana. As diversas
confrarias (fon, ioruba, banto) ainda ativas no Rio de Janeiro, no início do
século XX, não puderam reter por muito tempo sua integridade de antes. Tiveram
de se abrir à mistura, para sobreviver, e anexar a seu patrimônio as contribuições
oriundas das seitas populares ameríndias. Assim teve início a macumba, que Artur
Ramos definiu como um sincretismo jeje (fon), nagô (ioruba), musulmi (islã-negro),
banto, caboclo (índios), católico e espírita.
Em Angola, por exemplo, por volta de meados do século XVII a soberania portuguesa
estava consolidada e tinha por atividade econômica principal o comércio de escravos
para o Brasil. Dois povos de Angola, os ndongos e os imbangalas ofereceram forte
oposição ao tráfico escravista, os primeiros até numa rebelião que em 1671 os
portugueses sufocaram. No século XVIII Portugal teve de disputar os escravos
angolanos com ingleses, franceses e holandeses.
Por volta de 1700, segundo cálculos do historiador Ravenstein, os portugueses
dominavam Luanda e Benguela, litoral de Angola, a fim de manter abertas as rotas
de escravos, vez que estes eram a principal mercadoria a dominar o comércio,
sendo "exportados" para Portugal, Brasil, Antilhas e América Central.
Essa "mina de escravaria", mesmo diante dos protestos contrários,
ainda perduraria por um bom tempo. Na verdade, para a população angolana, a
abolição do tráfico da escravatura em 1836 e o fim oficial da condição do escravo
em 1878 não alteraram o fundo da questão, continuando a exploração das grandes
massas trabalhadoras angolanas por parte do poder colonial a ser feita sob a
forma do chamado contrato. Situação que sofre um grande agravamento com a política
colonial do regime de Salazar, a partir dos anos 30 do século XIX.
A chegada dos primeiros europeus data de fins do século XV, em 1482, quando
o navegador português Diogo Cão aportou à foz do rio Congo ou Zaire, subindo
a corrente com três caravelas até aos rápidos de Ielala. O padrão que ergueu
então numa das margens do rio em nome do rei D. João II atesta assim o primeiro
reconhecimento exterior do reino do Congo. Na sua capital, a ainda hoje existente
cidade de Mbanza Congo, no norte de Angola, o rei recebeu os estrangeiros como
amigos e deixou-se converter ao cristianismo, tomando o nome de Afonso I.
Esse primeiro contato realizou-se
entre soberanos iguais em direitos, mostrando-se a sociedade congolesa aberta
ao convívio com os recém-chegados e ao funcionamento de uma verdadeira aliança
entre estados organizados. Mais tarde, ao longo do século XVI, depois de certos
conflitos, se acentuariam os laços de dependência do reino do Congo em relação
à Coroa portuguesa.
Do reino do Congo dependiam outros menores localizados mais ao sul, como por
exemplo, de Matamba e o do Ndongo, de cujos soberanos, os ngola, provirá mais
tarde o no de Angola. A resistência desses três reinos à penetração colonial
será praticamente esmagada na segunda metade do século XVII, isto é, num período
de vinte anos: Congo - 1665, Ndongo - 1671, e Matamba - 1681. Vale destacar
que, entre 1964 e 1971, o reino do Congo chamou-se oficialmente Zaire, voltando
à denominação - República Democrática do Congo - a partir de maio de 1998, quando
forças rebeldes lideradas por Laurent-Desiré Kabila depuseram o então presidente
Mobuto Sese Seko.
Obras pesquisadas:
- Bantos, Malês e Identidade Negra. Nei Lopes. Forense Universitária
- O futuro começa agora. Jean Pailler. República de Angola
- Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda