DIAGNÓSTICO & TERAPÊUTICA
A
terapêutica tradicional angolana comporta duas partes distintas: parte
sobrenatural e a parte farmacológica (padre C. Estermann, Etnografia
de Angola).
O diagnostico na Medicina Tradicional angolana é feito
através dos dons espirituais dos curandeiros, que os activa através
da mente. Recorre ao apoio de instrumentos tradicionais, tais como o muxacato,
jimbamba (búzios), ngombo ya cisuka (cesto divinatório dos Lunda),
quiromancia (mulheres kwanyama) e o nkisi (estatuetas de pau preto, próprias
para adivinhação) e aruspicação, consulta aos órgãos
internos dos animais dissecados, para vaticínio (nhaneca-humbe). Através
desses métodos, os curandeiros desvendam as causas de doenças,
indicam as pessoas às causas ambientais, espirituais ou mágicas
das doenças e aconselha o seu afastamento com receitas da mesma ordem,
mas não deixam de recorrer a farmácia da natureza e massagens,
quando necessário.
A medicina envolve também diagnostico pelos sintomas e/ou adivinhação
e uma terapêutica à base de paus, ervas, raízes, cascas
de óleos vegetais e animais, massagens, etc. A farmácia natural
era composta dos seguintes produtos naturais: pau de cobra ou quitengue, pau
quicongo, pau hassa, pau mussunda, pau santo, pau paco, raiz do pau mubango,
óleo de elefante, favas pretas de Ambaca, Seia-hiaguari, purga de milondos,
avelãs purgativas, raiz de mutututo, raiz tumbata e mufuta, raiz de solo
e golamuchi, barbas de isandeira, caroços da banana, pó de linguinhas
da praia, cardamona, pedra bazar do elefante, pedra de sevar, raiz de malula,
raiz de ngongono, tripas de cobra-carneira, dente de engola, gariária
(gajaja), pó de chapéu queimado, água destilada e sal armónico,
artemísia, erva-moura, sementes de camapu, gergelim, urina de menino,
unhas de porcos queimadas, unhas de boi, incenso moído, chifres de veado
moído, arroz torrado, óleo de copaíba (bálsamo),
gordura de rã, óleo de minhoca, sumo de palmito, semente de mostarda,
sumo de alfavaca de cobra, dente de cavalo marinho, espinho de sumaúma,
jipepe, cabela, sobongo, ocre vermelho, diamantes, mudianhoca, mandioqueira,
mukua, aka kijila(escamas de pangolim), cabela, diximane, jipepe, masmaxito,
mubilo, ndele ni ndua, pemba(argila branca dos fundo dos rios), saco-saco, tuzeketo,
ukussu (ocre vermelho), xingazamba (rabo de elefante), mbalá.
Método Sobrenatural: O culto dos ancestrais ou culto
à vida eterna (muenhu uakalelaku), é a base de toda a religiosidade
angolana, ou seja, o que melhor atende as necessidades espirituais dos angolanos
de origem bantu. O culto é dinamizado através do “espiritismo”,
podendo ser também alargado à outras correntes espirituais, incluindo
o Cristianismo, visto Jesus Cristo (Nzambi Menor), ser um ancestral divinizado
da humanidade.
Independentemente da fé cristã, a crença na imortalidade
da alma, foi sempre o pilar de sustentação da fé dos angolanos
e seus antepassados. Durante o culto, evocam-se os antepassados, para que esses
intercedam junto de Nzambi(Deus) pelo doente. Evoca-se também Lemba
ou Lembá, a primeira Divindade, na mitologia bantu,
associado à criação do mundo, que representa o céu,
o princípio de tudo, equilíbrio positivo do universo, da união,
fraternidade entre os povos da terra e o cosmo. No passado, a imagem de lemba
era o símbolo da cura das doenças e estava presente em todas as
casas. A castração cultural, organizada pelo colonialismo, pos
fim a esta crença. No entanto a imagem foi conservada até aos
nossos dias, na diáspora bantu (afro-descendentes), ao longo de todo
o continente americano. O cântico de Lemba esta no livro UANGA, do escritor
Oscar Ribas.
Banhos e defumadores, também são realizados. O sacrifício
de animais, durante o culto, tem o mesmo sentido que no Antigo Testamento, expiação
dos pecados. Durante o culto, uma Xinguiladora (sacerdotisa de antepassados),
vestida de trajes espirituais de cor vermelha, com miçangas e outros
adornos espirituais, apoiada por um mestre quimbanda, vai bebendo óleo
de palma cru misturado com mel, para assegurar a comunicação com
os ancestrais, durante o culto terapêutico. (xinguiladoras que bebem vinho
ou outras bebidas alcoólicas, durante o culto, são vigaristas).
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