Ne Kongo e Funza

Karina – Mona Matamba

De acordo com as narrativas orais, o progenitor do reino Kongo, Ne Kongo, veio do céu com o primeiro remédio curativo, ou nkisi, que ele preparou em uma louça de barro feito sobre três pedras ou montes de formigas brancas (Thompson & Cornet 1981:34).

Outra versão desse mito Kongo associa Funza às origens dos minkisi (Janzen & MacGaffey 1974: 35; Larman 1962: 122). A narrativa diz que Funza tem uma forma humana e vive solitário e invisível debaixo da superfície da terra, na água. E, quando ele quer ficar próximo a seu povo, ele se transforma em um grande vaso de cerâmica guardado em um cesto (MacGaffey 1986: 123). Como Ne Kongo, também é creditado a Funza ter sido o primeiro nkisi, ou remédio sagrado, que deu origem a todos os outros minkisi para ajudar os vivos a manter o balanço entre os mundos espiritual e físico (MacCaffey and Janzen 1974: 35). Laman notou que o nganga de Funza, muitas vezes incorporou à composição do Nkisi Funza fibras de ráfia entrelaçadas como uma referência visual a sua força, sua habilidade em fornecer fertilidade e assegurar um feto forte e saudável (Laman 1962: 112-113).

Apesar de hoje Funza ser um nkisi quase esquecido, ele já foi considerado como sendo do mesmo patamar de Nzambi, tendo poderes do criador (Laman 1962: 112), como também foram Nkisi Ne Kongo, Nkisi Bunzi e Nkisi Mbumba – todos eles minkisi cerâmicos.

Como é agora conhecido na história da arte africana, os minkisi são objetos usados na África Central como meio de dar uma forma tangível às forças espirituais caracterizadas pelo poder em conceder o bem ou o mal sobre os humanos. Dependendo da forma e ativando elementos da composição do objeto, cada nkisi serve a um (ou mais) propósito(s) em particular e seu poder deriva de muitos domínios particulares (MacGaffey 1991: 4-5, 1993: 61). Nas narrativas de Ne Kongo e Funza, o primeiro originário do céu e o segundo da água, ambos são relacionados ao poder de procriação. Nessas narrativas, também encontramos a origem mítica dos primeiros remédios, ou minkisi e eles são descritos como vasos cerâmicos. Isso não é uma coincidência, já que o processo da fabricação de um pote é uma metáfora difundida para os poderes de criação entre muitos povos Bantos.

Muitos minkisi cerâmicos são relacionados à noção de procriação e são usados para problemas de fertilidade, esterilidade e aqueles relacionados ao domínio feminino. Podemos então ver que a arte cerâmica tem um importante papel não apenas nos mitos de origem, mas também na cura entre os povos do congo e aqueles relacionados culturalmente a África Central – já que a procriação é uma das maiores preocupações de grande parte do povo Congo.

Fonte: Thompson, BARBARA. The Sacred Vessel: Ceramic Minkisi as Agents of Healing. University of Iowa

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