Ukoi:O alto preço do adultério

Kutalembê

Texto de Gabriel Mangumbala, Lubango

Cometer adultério com mulheres da região sul de Angola, sobretudo da tribo Nyaneka-Nkumbe (Huíla), equivale a tirar a pele do cavalo morto com unhas.
Ukoi é multa aplicada a quem for apanhado em flagrante a manter relações sexuais com a mulher do outro. Geralmente, o pagamento tem sido feito em uma ou duas cabeças de gado bovino dependentemente das possibilidades do autor.

Ukoi beneficia mais os homens e ao mesmo tempo prejudica-os. O caso de Kamati apela à consciência dos magnatas da infidelidade, para que antes de envolver-se sexualmente com as mulheres dos outros pensem nas consequências. Seguem a historia de Kamati, um bígamo, camponês de 46 anos de idade, casado a 25 anos e pai de 14 filhos.

Kamati, alcunha de um bígamo de 46, pertencente ao clã munhada da tribo Nyaneka-Nkumbe, na província da Huíla, casado pela igreja Católica em 1975, com a Catumbo, tendo dois anos mais tarde ido viver maritalmente com a Câmia, hoje com os seus 13 filhos enfrenta as enormes dificuldades provadas pelo Ukoi, multa dos adultérios por ele praticados.

Com um mísero ordenado mensal de 120 Kz (quase 11 dólares), que ganha numa fazenda onde funciona como agricultor, Kamati vive os momentos mais tristes da sua vida. Não consegue sustentar os filhos nem vestir as duas mulheres, desde que começou a envolver-se sexualmente com as mulheres dos seus vizinhos.

Tinha uma vida economicamente estável nos anos 80, agora "come o pão que o diabo amassou". As três vezes em que foi alvo de Ukoi deixaram as duas casas do bígamo sem eira nem beira. Senta-se em tijolos, come sobre o joelho e dorme em papelões de caixa de leite nido.

Kamati recusa falar sobre o assunto. O NetArte apurou que numa noite de Junho foi apanhado em flagrante, na cama, por cima da Nhama, sua amante há dez anos, pelo marido dela, tio Kapewa. Ambos residem no mesmo bairro, algures na periferia da cidade do Lubango.

A primeira medida que tomou tio Kapewa, nome mais conhecido do marido da Nhama, foi de cobrar Ukoi, no valor de duas cabeça de gado bovino, depois de um julgamento com um soba Tyipa (autoridade tradicional), como é costume na sua tribo Nyaneka-Nkumbe, quando acontecem casos de infidelidade.

Com 50 anos, casado em 1974, pela igreja Envangêlica, pai de 8, tio Kapewa diz que já desconfiava da relação extra-conjugal da sua esposa com o vizinho, Kamati, meses antes.

"Nunca quis agir por temer da reacção da Nhama e dos filhos e também para não despertar a caça", disse.

Conta e acredita no ditado popular segundo o qual é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo.

"Comecei a seguir os passos dela. E naquela noite Deus foi pai".

Porquê não se separou da sua mulher, como é habito das pessoas, quando acontece casos de "cornos" (traição/infidelidade)?

"Gosto muito dela, por isso só chamei o vizinho para junto do soba resolvemos o caso da "moda" da tribo Nyaneka-Nkumbe, que é o pagamento de Ukoi", respondeu.

No julgamento com o soba, que culminou com torturas físicas a cavalo marinho aos dois(Kamati e Nhama), na presença dos filhos, das duas famílias e alguns vizinhos, Kamati prometeu pagar, num prazo de três meses, mais este não mexeu a palha.

" Fui pela quanta vez a casa dela e começou a arma-se em esperto. Decide tira-lhe toda mobília da sala de visita um armário, e uma mesa completa de seis lugares e assim se pagou Ukoi", Conta tio Kapewa com ares de satisfeito.

Numa tarde de Abril, depois de uma chuva miúda encontrei a Catumbo, primeira mulher de Kamati, sentada no quintal, com rosto pálido, aquecendo o corpo ao calor das brasas postas num fogareiro. Em conversa com a sua vizinha Ginga, Catumbo lamenta a miséria que vive provocada pelos adultérios do marido.

Conta que a terceira vez em que Kamati foi vitima de Ukoi, o ofendido levou a cama do casal, já que não havia mais nada em casa.

"Agora estamos a dormir em papelões estendidos no chão", fala enquanto, ao mesmo tempo, os seus olhos libertam lágrimas. "Se não fossem os seis filhos que temos, me separaria desse homem".

Como Kamati, muitos são os chefes de família que hoje vêem a sua vida sem norte, por causa do Ukoi. No entanto, esta prática de pagar pelo adultério, com cabeça de gado bovino ou similares data desde tempos remotos e faz parte da cultura das diferentes tribos do Sul de Angola.

Para o clã Nkumbe, da região do Mulondo(Huila) quando acontece caso de adultério, a mulher é submetida a tratamentos nos rituais tradicionais, por suspeitar-se de doenças venéreas ou da existência de espíritos malignos (feitiçaria), que a impulsionaram a aderir ao acto, segundo crenças deste povo. E o pagamento de Ukoi depende dos parentes mais chegados do marido. Mas Ukoi é estipulado pela autoridade tradicional. Geralmente, não passa de duas ou mais cabeça de gado bovino, dependente das possibilidades do adúltero.

Como nas cidades poucos acreditam no adultério como fruto de espírito maligno, Nhama fez alguma análise médica para detectar possíveis doenças venéreas e continuou a relação conjugal normalmente com o marido, tio Kapewa que diz gostar muito dela, apesar de desconfiar que as duas últimas filhas não sejam realmente dele.

Partidas para adúlteros

Na tribo Ovaherelo(mucubal) da região do Namibe, a prática de Ukoi é igualmente paga em duas ou mais cabeças de gado bovino, de acordo com o tempo em que são amantes e das posses do parceiro masculino.

Já na Batabata, região do clã mumuíla, pertencente a tribo Nyaneka-Nkumbe, usam de receitas financeiras. O homem combina com as suas esposas para que estas seduzam alguém, que tem mostrado interesse ou não por elas, prepara a "ratoeira" (armadilha), de modo a serem apanhados em flagrante. Depois Ukoi será repartido ao meio.

Muita gente, principalmente aqueles que habitam na cidade reprovam esta forma de pagar ao marido traído. Advogam ser injusto pagar duas ou mais cabeças de gado, porque na prostituição paga-se apenas o preço de um quilo de carne. "É injusto gastar duas cabeças de gado, que ao câmbio informal está no valor de 200 dólares, por um ou mais actos sexuais!".

A justificação do soba Matan, da tribo Kwanyama, da região do Kunene, adverte que o pagamento não se refere ao acto sexual, simplesmente com a mulher do outro, mas a falta de respeito, o abuso e o atentado à honra daquela família.

"A tradição é que custa este valor e não o coito. Também é para servir de castigo ao homem", disse.

Questionado sobre o facto do seu amante pagar Ukoi, uma vez que cada tem a sua dose de culpa, Matan disse que se deve pela razão dos homens geralmente ser os incentivadores, tomando iniciativa na relação adúltera, conquistando, por um lado e, por outro, as mulheres destas tribos não possuem cabeças de gado ou outras riquezas, por isso não pagam".

Segundo o soba Tyicolopati, dum clã Munhemba, da região norte do Kunene, será difícil esta pratica de pagar Ukoi desaparecer, pois data desde os tempos remotos e faz parte da cultura do povo angolano e, em particular, da região Sul. Ukoi serve como meio de educação aos homens para regularem a sua actividade sexual.


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