'Nosso objetivo precípuo é facilitar o intercâmbio de informação, democratizando o conhecimento e possibilitando o debate em torno da tradição afro-bantu, bem como vislumbrar a integração das comunidades de origem africana, porém, sempre respeitando símbolos, mitos e tradições, traduzindo as experiências mais fundamentais da existência humana e da concepção cosmogônica de mundo'



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Divindades: Kayongo, Bamburucema, Matamba

ESTUDANDO KAYONGO, BAMBURUCEMA, MATAMBA.

Por Mama Mutarerê(*)

Está difícil encontrar um ponto de partida para estudar as origens desses mitos e neles nos aprofundarmos. Como geralmente faço uma busca pelas origens das palavra, peguei logo o dicionário:
Kaiongo – s.f. Espírito feminino que constitui uma das mulheres de Mutakalombo. Entidade espiritual conubiada com essoutra entidade espiritual. Termo quimbundo.

Fonte: -- Dicionário de Regionalismos Angolanos, pág. 140 -- de Oscar Ribas -- 1994 – Editora Contemporânea.

Durante meus primeiros estudos sobre o ngombo, encontrei uma resenha de Ramon Sarró sobre o livro ‘SE ISTO É UMA CESTA” da Etnógrafa Sonia Silva. Descrevendo o que leu diz ele:

“Entre os Luvale, só poderão ser adivinhos aqueles que sofreram de uma determinada doença cuja cura tenha envolvido a possessão dos seus corpos por kayongo, o espírito da adivinhação. A possessão e a capacidade divinatória constituem a sua cura — porém, sempre que tente abandonar a adivinhação, o homem será novamente acometido pela doença. Kayongo, um espírito metaforicamente associado ao vento , é também o espírito que toma posse da nova cesta de adivinhação mediante a transferência das peças da antiga lipele para a nova.”

Fonte:Análise Social, vol. XL (174)
Ramon Sarró*
Disponibilizado na NET no site :
http://www.ics.ul.pt/publicacoes/analisesocial/recensoes/174/ramonsarro.pdf

Essas duas informações sobre Kayongo, em que ela seria a esposa de Mutakalombo e em outra região, seria o espírito da adivinhação e metaforicamente associado ao vento , não poderiam ficar dissociadas das informações anteriores que obtive dos meus mais velhos no Candomblé.

Em nossa casa, (casa de meu pai Passinho) KAIANGO , é o fogo da terra, a parte ígnea da Terra; principio por onde passam todos os caminhos que têm relação com este elemento primordial, FOGO EM BRASA, EM LAVAS.

Todos sabem que os bantu habitam esses 3 reinos, Angola, Matamba e Congo, desde períodos pré-históricos, no período paleozóico quando a terra ainda esfriava... Lembram das “pegadas de Zambi na África”??? Assim, logicamente, todos os mitos devem ser buscados desde essas eras.

Kaiango tem ligação com Ntoto uá Zaba (as profundezas da terra que se comunica com o céu), nos domínios do Nkisi Nsumbu, com quem compartilhou grandes segredos, os quais somente ela conhece e a ela pertence. Mais para cima dessas terras profundas, também tem ligação com Kavungo, onde nesses domínios, as cavernas, visita com suas ventanias, é bem vinda e festejada.

KAIANGO É A GRANDE SENHORA DO FOGO PRIMORDIAL , DAS BRASAS DO INTERIOR DA TERRA
, enquanto Nzazi é o grande Senhor do Fogo Cósmico que rasga os céus desde os tempos primordiais.

No momento em que a Terra iniciou o seu resfriamento, surge a FUMAÇA (não uma fumaça qualquer, mas uma fumaça das brasas vulcânicas, resultante do processo da criação deste mundo)... É A ENERGIA DE KAIANGO SE TRANSMUTANDO, CRIANDO CAMINHOS... Fumaça é a representação do ar, do vento na forma mais simples e elementar da Criação. A Natureza Ígnea se transmuta em fumaça primordial e cria novos caminhos sem contudo perder a sua ligação com o fogo primordial de centro da Terra. Mas... FOGO É FOGO, FUMAÇA É FUMAÇA.

A nuvem de fumaça, o movimento da fumaça, a presença de fumaça em florestas, em lugares úmidos, sem duvida nos reporta à imaginar a forma das almas dos antepassados da humanidade.

Dessa forma, KAIANGO está ligada à criação do mundo, tendo sua própria natureza associada aos VENTOS e como resultantes de seu movimento, novos caminhos se criam para a existência dos redemoinhos de ar e tempestades.

Na África, nas regiões do Kongo, ocorrem tempestades de ventos impetuosos tão formidáveis que fica tudo em trevas. Para dissipar esse estado atmosférico tão carregado e que traz tantas dificuldades, realizam-se rituais.

O vento também faz parte do sistema divinatório dos Ngangas, conforme podem ver, citado acima, entre os Luvale; sem ele acreditam que não receberiam a visita dos espíritos, principalmente em seus sonhos.

Porém a Natureza não pára de se transmutar para GERAR NOVOS ELEMENTOS. Como conseqüência NOVOS CAMINHOS
.

Com as mudanças climáticas, previsíveis no processo de formação da terra, vieram as CHUVAS.

A CHUVA vem da evaporação devida ao ar quente sobre as águas dos rios, dos lagos, poças. No encontro das camadas de ar frio, com ar quente as poeiras da atmosfera se condensam e desaparecem, ocorrendo a precipitação.


Mais uma vez a Natureza se transmuta e sem perder seu principio original abre caminho para UAMBULU NSEMA (BAMBURUCEMA) - a grande SENHORA DO FENÕMENOS ASSOCIADOS À SOBRECARGA NA ATMOSFERA, de calor, umidade e vento, culminando em TEMPESTADES DE CHUVA, RAIOS E TROVÕES.

Não encontrei nos livros nada semelhante ao que aprendi pela oralidade dos MEUS mais velhos do TUMBENCI, mas, nos estudos referentes à formação da terra é fácil constatar quer realmente a mitologia “se encaixa” perfeitamente com os relatos histórico/ científicos.

MATAMBA
, enquanto mito, possivelmente advém do imaginário do povo africano bem mais recente.
Sobre a existência e localização do Reino de Matamba, perguntei pessoalmente ao Antropólogo angolano Dr. Virgilio Coelho, ao que ele me respondeu: - “veja na coletânea que lhe dei, você encontrará o que procura”.

-- De fato, em “Historiografia sobre o Reino de Ndòngò no contexto da História de Angola´- Lisboa 2000 , ao propor estudos arqueológicos com vistas ao favorecimento de informações (...) diz Dr. Virgilio:

“O lugar conhecido no século XVII por “Santa Maria de Matamba”, justamente no local onde a soberana Njíngà à Mbàndè, baseada na ideologia túmúndòngò, mandou construir uma “cidadela real” foi erguida a Igreja de santa Maria, pelos padres capuchinhos, tendo sido do conhecimento de Padre Cavazzi de Montecúccolo, que a ela se referiu na sua Istorica descrizione (1667)” .

Isto prova a existência de um rei ou rainha na cidadela (pequena cidade)

-- Na página 137 – Estudos AFRO-Asiáticos 32 –dezembro de 1997, diz Dr. Virgilio Coelho: “ no vocabulário produzido pelos túmùndòngò, há pelo menos uma palavra que inicialmente serviu para designar a unidade dos distintos grupos de imigrantes que se viriam fixar na região da Mátàmbà e que mais tarde formariam as primeiras linhagens fundadoras, sob o mando de Ngòlà à Músùdi, do Reino de Ndòngó, Essa palavra é o designativo túmbà ou dítùmbù (plural: mátùmbù) que significa justamente !parente, conhecido, aderente”.

Na mesma revista supra citada, conta-se que o Ngola á Musudi chegou em uma vasta região que se estendia desde o território do interior do sertão (das matas) até o mar, e juntou muitos parentes, sendo que mais tarde, levado por condições geográficas, o povo do mato se distinguiria dos Ndongo, e o termo túmbà, pl. mátùmbù, que antes significou unidade, se ampliaria para designar “aqueles que não são como nós e que não vivem em nosso seio” --- esclarece Dr. Virgilio Coelho. Por corruptela, foi gerado o termo Matamba.

“ Com efeito, os soberanos, titulados NGÒLÀ , até antes da chegada dos portugueses ao “país Ndòngò”, teriam dominado já todo o vasto espaço territorial desde a Matamba até o mar
, como veremos adiante, vasta toponímia ou dados da natureza que atestam esse fato.

MATAMBA era uma vasta região na localidade denominada KÁZÀNGA NÀ LÙNDÀ, situada entre os Rios Káwàli, Kàmbù, Wàmbà, Lúhàndà e Lúwiyi.

Pode-se dizer, com relativa certeza, que os povos que emigraram para essas paragens não estavam unidos e a fixação á terra pelas distintas famílias que ali chegaram foi feita de forma independente umas das outras. A unidade desses povos é explicada por alguns observadores que em distintos contextos e épocas a ela se referiram.

Por exemplo, CAVAZZI, missionário capuchinho de origem italiana que viveu nessa região, igualmente na segunda metade do século XVII, em sua notável obra, DESCRIÇÃO HISTÓRICA DOS TRES REINOS DO CONGO, MATAMBA E ANGOLA, mostra comprovadamente a existência desses três reinos. Diz ele: “A origem destes reis deve ser deduzida dos vislumbres das tradições orais, que com o decorrer do tempo são sempre mais ou menos alteradas.. Estas tradições relatam que antigamente todo o território do Dongo estava dividido entre numerosos régulos (pelo que ), dizem os naturais (o seu primeiro rei foi um tal Ngola-Mussuri, o que quer dizer “rei serralheiro”, a quem um ídolo o tinha ensinado a arte fabril (...)

--- Digo eu: Será que o mito Nkossi (caçador provedor da tribo) não teria se transformado num guerreiro (REI SERRALHEIRO) equivalente ao Ogum yorubano, a partir dessa época? será que não é esta a razão para os angoleiros terem concordado com tal equivalência no âmbito religioso???

(*)Itana Stela Oliveira de Carvalho é Mestre em Educação - Université du Québec au Montreal – UQAM, aposentada pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB, após 39 anos de trabalho. Iniciada no Candomblé em 1992 pelo Tata Juraci Xavier Passinho, Sacerdote do Unzó Kuna Nkisi Tumbenci Malawla situado em Salvador BA. no bairro Águas Claras – Cajazeiras VIII, é neta de Mametu Kizunguirá e bisneta de Mam'etu Thuenda diá Nzambe.  Atualmente, está em fase de implantação do seu terreiro, localizado em Caype a 60km de Salvador, o que está sendo realizado pelo único pai de santo que teve até então, Tata Passinho.

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